
Descia as escadas rapidamente, parei e olhei pelo vitral da escadaria no qual a luz do sol atravessava impiedosamente naquela manhã de quarta-feira, as suas coisas já estavam dentro do carro e eu não pude evitar a nostalgia daquele momento, lembrei de tantas vezes que vi você sorrir e das vezes que brigamos por motivos banais.
Naquele instante me veio uma vontade de correr em sua direção e pular em seus braços como fazia todas as manhãs antes de sairmos bem cedo, senti um grande desejo de te dizer mais uma vez para não ir, mas não o fiz.
Lá estava eu, imóvel, eu sei que deveria ao menos lhe dizer adeus, você sabia que no fundo eu não queria ver você partir, da janela do carro você me enxergou por entre as plantas que cobrem o corrimão das escadas, seu olhar dizia muito, embora as lágrimas já corressem por seu rosto.
No momento eu senti algo parecido com um nó na garganta, talvez fosse o grito de dor que hesitei em deixar ecoar pelos cantos das paredes que me ouviam chorar.
Deixei cair no chão os livros que segurava, como de costume os que levava sempre comigo, o caderno escancarado com seu cheiro, os bilhetes que você deixava sobre minha mesa, suas frases e músicas que agora eram mais parte de mim do jamais fui. Seus Vizinhos passavam por mim e me olhavam como quem sente pena ou algo mais asqueiroso, se um dia houve algo de forte em mim não estava ali naquele lugar.
O vento trazia seu cheiro, seus tons mais suaves, e aquelas escadas não me deixavam esquecer-se dos momentos mais doces e ardentes que vivi com você.
Saí em direção ao meu apartamento buscando continuar com aquela sensação de saudade em mim que me fazia lembrar seu jeito e suas manias, por diversas vezes escutei sua voz me chamando como só você sabia fazer, procurava ao meu redor, tarde de mais.
Cheguei em casa com a sensação que havia deixado algo pelo caminho, mais parecido com uma criança que perde alguma coisa e sabe que não vai encontrar, podia ouvir os meus soluços ecoarem pelos corredores, e meu quarto estava longe demais para esconder minha dor que não cabia em mim.
Procurei desesperadamente por alguma lembrança sua, algo que só eu podia saber e que me deixaria de alguma forma mais perto de você, mas tudo era tão banal diante das lembranças e marcas que você deixou em mim, nada me bastava.
Sentei-me ali sozinha pelo resto do dia, pensei no quão difícil seria acordar na manhã seguinte e sorrir novamente como se você nunca tivesse partido, meus tons já não eram escuros o suficiente para dizer ao mundo o quanto seria difícil fazer você tornar-se passado agora, em mim.

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